Fei-Fei Li: política de IA precisa de ciência, não ficção científica
Fei-Fei Li · Professora Stanford / CEO World Labs
▶ Ouvir / AssistirA criadora do ImageNet e CEO da World Labs explica por que o futuro da IA está além dos chatbots — world models, robótica e uma política ancorada em evidência.
Quem é
Pioneira da visão computacional e da IA centrada no ser humano. Criou o ImageNet e fundou a World Labs para construir IA espacial (mundo em 3D).
Destaques
- Política de IA deve se basear em ciência, não em ficção científica.
- Regulação precisa equilibrar inovação, segurança e direitos.
- A IA espacial (World Labs) é o próximo passo da inteligência artificial.
Em entrevista a Emily Chang, no programa The Circuit da Bloomberg, publicada no dia 19 de agosto no YouTube, a criadora do ImageNet e CEO da World Labs explicou por que o futuro da IA está além dos chatbots — e por que a política do setor precisa de ciência, não de ficção científica.
O fim da era dos chatbots
Enquanto a indústria inteira concentra esforços em modelos de linguagem como ChatGPT e Claude, Li aposta em um território diferente: os world models, sistemas que preveem o que acontece a seguir no mundo real — não apenas a próxima palavra de uma frase.
"Se queremos criar um mundo onde continuamos a impulsionar a descoberta científica, onde queremos que máquinas como robôs sejam parceiras nossas, toda essa linguagem não pode fazer isso sozinha. Construir world models e inteligência espacial não é contra os LLMs. É sobre a próxima fronteira e o próximo capítulo."
O que é um world model (e o que a World Labs constrói)
Para Li, a inteligência espacial se divide em três funções: renderização, simulação e planejamento. A World Labs, startup que levantou US$ 1 bilhão, lançou o Marble, plataforma que gera mundos 3D exploráveis e editáveis a partir de um único prompt visual ou de texto.
- Renderização: o modelo gera pixels bonitos para humanos consumirem (como o Sora, da OpenAI).
- Simulação: captura a estrutura real do mundo, com geometria baseada em física — para máquinas, não só para humanos.
- Planejamento: o modelo diz o próximo passo — como um robô saber que deve pegar um copo e colocá-lo em outro lugar.
"Marble não é diferente de uma imagem — até você perceber que é um mundo, porque posso navegar nele. Posso andar para frente, virar, ir a qualquer lugar. É um mundo 3D totalmente consistente."
Os casos de uso já são concretos: produção virtual em filmes, game development e treinamento de robôs em parceria com a NVIDIA.
Robótica: US$ 6 bilhões é pouco
Questionada sobre o gap entre hype e realidade dos humanoides — que ainda não carregam uma máquina de lavar louça —, Li rebate: a robótica será uma das revoluções mais importantes da industrialização humana, e o investimento atual é insuficiente.
"US$ 6 bilhões é pouco demais. Se você olhar o investimento em carros autônomos, em modelos de linguagem, foi preciso muito mais do que US$ 6 bilhões."
"Sou paranoica todos os dias"
Competindo contra gigantes de bolsos fundos, Li admite a pressão — mas não o medo paralisante. A vantagem, diz, é o foco.
"Como empreendedora e CEO, sou paranoica todos os dias. Mas estou paralisada? Absolutamente não. Grandes empresas têm muita coisa na mesa. Nós temos uma coisa na mesa, e estamos focados nela."
O investimento em world models já soma US$ 3 bilhões e cresce, mas o campo ainda é imaturo — comparável, segundo Li, a 2019 para os chatbots.
Política de IA: ciência, não ficção científica
Conselheira de presidentes americanos e da ONU, Li tem uma receita clara para a regulação. Ela critica o debate dominado por extremos — utopia total ou apocalipse — e defende evidência.
"Em primeiro lugar, ancorar isso em ciência, não em ficção científica. Muita da conversa de política de IA com gente do Vale do Silício fala sobre a extinção da humanidade, o senhor das máquinas da AGI, o que distrai o trabalho real de política."
A segunda recomendação: fortalecer o ecossistema, financiar o setor público e a educação STEM do K-12 ao K-16.
"Capital humano, no fim do dia, é o recurso mais importante do nosso mundo. Queremos uma sociedade próspera de pessoas, não uma sociedade próspera apenas de máquinas."
Riscos, governança e o "complexo de Deus"
Li reconhece os riscos reais — desinformação, robôs armados por atores mal-intencionados, estudantes que usam a tecnologia como muleta — mas rejeita o pânico e o messianismo.
"É perigoso para qualquer indivíduo achar que sabe mais do que todo mundo. Como CEO, nossa premissa fundadora é contribuir com a sociedade e empoderar pessoas. Não é nossa posição tomar cada decisão por elas."
Para ela, a saída é a governança coletiva — sem jogar fora o bebê com a água do banho.
"A governança não deveria ser 'vamos parar a IA', porque essa é uma tecnologia que pode descobrir a cura de doenças, empoderar estudantes e professores, ajudar nossos idosos. Esse é o bebê aqui."
O otimismo de quem deu olhos à IA
Ao final, Li revela sua filosofia: o arco da história pende para a benevolência. E deixa um recado sobre o papel da ciência no debate público.
"Não entro com hype. Não entro com retórica extrema — utopia total ou fim do mundo. É muito importante que quem quer que eu converse saiba que sou uma cientista. Eles precisam de fatos científicos. E é meu dever falar o que penso e contestar quando estão errados."
Sua esperança, diz, está na humanidade. A mesma curiosidade que a levou de Chengdu a Princeton, do ImageNet à World Labs, agora aponta para o próximo salto: máquinas que não apenas veem, mas entendem e navegam o mundo físico.