Uma rede de intermediários de API permite que desenvolvedores na China acessem modelos da Anthropic por uma fração do preço oficial, apesar de bloqueios geográficos e exigências de identificação. O funcionamento desse mercado foi detalhado pela pesquisadora Zilan Qian, do Oxford China Policy Lab, em artigo publicado no ChinaTalk em 5 de maio.

Conhecidos na China como “transfer stations” (中转站), esses serviços funcionam como intermediários entre usuários e provedores de inteligência artificial. Em vez de se conectar diretamente à infraestrutura da Anthropic, o cliente envia suas solicitações ao operador, que encaminha as requisições usando contas e servidores próprios.

O modelo criou um mercado que combina acesso a serviços bloqueados, preços reduzidos e uma cadeia de fornecedores especializados. Ao mesmo tempo, transfere para intermediários pouco transparentes dados que podem incluir prompts, respostas, código e outras informações inseridas pelos usuários.

Mercado cresceu em paralelo aos bloqueios

A Anthropic não oferece oficialmente seus serviços na China continental e mantém diferentes mecanismos para restringir o acesso em regiões não suportadas.

Além de requisitos relacionados a telefone, pagamento e localização, a empresa ampliou em setembro de 2025 suas restrições para organizações controladas por empresas sediadas em países não atendidos. Em abril de 2026, também passou a solicitar verificação de identidade de determinados usuários por meio de documento oficial e selfie ao vivo.

Mesmo assim, intermediários continuaram oferecendo Claude e ferramentas como Claude Code para clientes chineses.

Segundo o levantamento, alguns desses serviços anunciam consumo de modelos da Anthropic por preços equivalentes a apenas uma pequena parcela das tarifas oficiais. Em determinadas ofertas analisadas, o custo chega a ficar entre 70% e 90% abaixo dos valores cobrados diretamente pelo provedor.

Uma cadeia com diferentes fornecedores

Os operadores não dependem de uma única estrutura.

Na parte superior da cadeia aparecem fornecedores de contas, serviços de verificação, infraestrutura de pagamentos e redes utilizadas para manter conexões fora da China. No centro estão as plataformas que recebem as solicitações dos usuários, administram pagamentos e distribuem o tráfego entre diferentes contas.

Do outro lado ficam desenvolvedores individuais, empresas, criadores de aplicativos e revendedores que compram capacidade dessas plataformas e podem revendê-la novamente.

Essa divisão torna o ecossistema mais resistente. A suspensão de um serviço ou conjunto de contas não necessariamente elimina fornecedores, clientes ou outros intermediários capazes de substituí-lo.

Preço baixo aumenta risco para usuários

O desconto oferecido por essas plataformas nem sempre representa apenas uma operação com margem reduzida.

Como o intermediário controla a conexão, o usuário pode não conseguir confirmar se recebeu exatamente o modelo contratado. O artigo cita pesquisas e relatos sobre serviços que anunciam modelos mais caros, mas podem encaminhar determinadas solicitações a alternativas de menor custo.

Um estudo mencionado no levantamento avaliou 17 proxies de API e encontrou diferenças relevantes entre o desempenho de serviços intermediados e APIs oficiais em alguns testes.

Existe ainda um risco relacionado à privacidade.

Tudo o que passa pelo intermediário pode tecnicamente ser registrado em seus servidores. Em ferramentas de programação com IA, isso pode incluir código-fonte, contexto de repositórios, comandos, respostas do modelo e informações sobre projetos internos.

Comunidades chinesas citadas por Qian afirmam que registros desse tipo podem ser reaproveitados como dados para treinamento de modelos ou negociados por terceiros. O próprio levantamento, porém, ressalta que não há comprovação de que essa coleta e comercialização ocorra de forma sistemática entre os operadores.

Proxies reduzem visibilidade dos provedores

O fenômeno também cria um problema para sistemas de segurança desenvolvidos pelos próprios laboratórios de IA.

Quando milhares de usuários passam por intermediários, o provedor pode enxergar a conta ou infraestrutura do proxy, e não necessariamente a pessoa que originou cada solicitação. Isso dificulta associar comportamentos específicos a usuários reais e reduz o efeito de medidas baseadas apenas em suspensão de contas.

A situação afeta mecanismos que dependem da análise de padrões entre contas e conversas para identificar atividades coordenadas. Se diferentes operadores e credenciais forem usados ao longo da cadeia, parte desses sinais pode ser fragmentada antes de chegar ao provedor do modelo.

O cenário ganhou maior atenção em 2026. Em memorando divulgado em 23 de abril, a Casa Branca afirmou que entidades chinesas utilizavam redes com dezenas de milhares de contas intermediárias em campanhas de destilação contra modelos americanos. A Anthropic também havia relatado em fevereiro uma operação envolvendo mais de 20 mil contas fraudulentas administradas por uma única rede de proxies.

O mercado descrito por Qian, no entanto, vai além de laboratórios envolvidos em desenvolvimento de modelos. Ele atende também estudantes, pesquisadores, profissionais de tecnologia, desenvolvedores independentes e outros usuários interessados em acessar modelos estrangeiros ou reduzir os custos de uso.

O resultado é uma economia paralela que expõe uma limitação dos controles baseados exclusivamente em localização, identidade e conta: novas barreiras podem aumentar o custo do acesso, mas também criam incentivos econômicos para que intermediários tentem contorná-las.

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