Uma das chaves privadas utilizadas por uma autoridade certificadora intermediária da empresa indiana eMudhra era simplesmente o número 4. A falha fazia parte de um conjunto de oito chaves criptográficas facilmente reproduzíveis, cuja descoberta levou Google e Mozilla a bloquear certificados potencialmente perigosos no Chrome e no Firefox.

O problema foi comunicado às empresas de tecnologia em 17 de outubro e divulgado publicamente na terça-feira (20). O pesquisador de segurança Scott Helme confirmou a vulnerabilidade ao recuperar todas as oito chaves a partir de certificados públicos, em menos de um segundo.

"Uma das chaves privadas de autoridade certificadora da eMudhra é o número 4", escreveu Helme, que também identificou chaves correspondentes aos números 56, 115 e 156.

As autoridades afetadas incluíam seis intermediárias destinadas à emissão de certificados TLS, utilizados em conexões HTTPS, e duas relacionadas à assinatura de código. A exposição poderia permitir a criação de certificados falsos capazes de se passar por serviços legítimos em aplicações que ainda confiassem nessas autoridades.

Por que uma chave criptográfica válida podia ser descoberta em milissegundos

As chaves utilizavam criptografia de curva elíptica P-384, projetada para trabalhar com números privados de até 384 bits. Quando geradas corretamente, elas oferecem um espaço de possibilidades tão grande que descobrir a chave privada a partir da pública é considerado computacionalmente inviável.

No caso da eMudhra, porém, todas as oito chaves cabiam em apenas um byte, reduzindo a busca a no máximo 255 valores possíveis.

O problema não estava no algoritmo criptográfico, mas na ausência de aleatoriedade durante a geração das chaves. Os certificados continuavam matematicamente válidos e podiam passar por verificações convencionais, apesar de oferecerem proteção praticamente inexistente contra a recuperação da chave privada.

A gravidade também variava conforme o software utilizado. O Google informou que nenhum certificado TLS emitido pelas seis intermediárias havia sido registrado nos sistemas de Certificate Transparency antes do bloqueio. Isso impedia seu uso contra clientes que exigem esse registro, como o Chrome em sua configuração padrão.

Outras aplicações não oferecem necessariamente a mesma proteção. Em testes locais, Helme demonstrou que clientes como curl, Python e Node.js aceitavam um certificado falsificado com uma das chaves comprometidas. O experimento confirmou a possibilidade técnica de falsificação, mas não demonstrou ataques reais contra usuários.

O Chrome distribuiu o bloqueio das chaves afetadas por meio do CRLSet em 17 de outubro. O Firefox utilizou o OneCRL, concluindo a distribuição da proteção para usuários com configurações padrão naquela mesma noite. Nenhum dos dois navegadores exigiu atualização manual ou reinicialização para aplicar essas medidas.

A Mozilla também disponibilizou versões adicionais do Firefox para instalações com configurações especiais e iniciou a remoção da autoridade raiz relacionada ao incidente de sua biblioteca de certificados NSS.

O Google, por sua vez, anunciou a retirada da autoridade emSign ECC Root CA - G3 de sua lista de confiança, com distribuição prevista para 27 de outubro. A mudança exige que operadores de sites que utilizem certificados legítimos vinculados a essa raiz os substituam para evitar problemas de conexão.

Em comunicado atualizado na quarta-feira (21), a eMudhra explicou que uma etapa de processamento das chaves durante uma cerimônia realizada em abril de 2025 produziu um segundo conjunto de chaves fracas, posteriormente utilizado na emissão dos certificados intermediários. A empresa afirmou que o procedimento envolveu módulos de segurança de hardware certificados e que a causa exata ainda está sob investigação.

A companhia declarou ter revogado as oito autoridades intermediárias em 19 de outubro. Segundo sua análise, sete nunca foram utilizadas em produção, enquanto a oitava não chegou a emitir certificados para usuários ou sites. Também afirmou não ter encontrado evidências de exploração anterior à divulgação.

Embora as chaves privadas das autoridades raiz não tenham sido comprometidas, a retirada preventiva de uma delas das listas de confiança já exige a substituição de certificados legítimos. Segundo a eMudhra, esse impacto operacional está concentrado em um ecossistema de clientes nos Estados Unidos, cuja migração está em andamento.

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