A Roblox foi pressionada por dois reguladores do Sudeste Asiático no mesmo dia, mas por problemas diferentes. Em 22 de setembro, a Indonésia cobrou do CEO David Baszucki controles mais rígidos para menores dentro do produto, enquanto a autoridade de privacidade das Filipinas exigiu explicações sobre obrigações locais de registro e tratamento de dados. Juntos, os episódios expõem um desafio que cresce conforme a plataforma se internacionaliza: uma arquitetura global de segurança pode estabelecer o padrão, mas já não elimina a necessidade de adaptar produto, dados e operação a cada jurisdição.

A questão é especialmente relevante para a Roblox porque seu crescimento depende cada vez mais de mercados internacionais. No segundo trimestre de 2026, 82% dos usuários ativos diários e 43% da receita vieram de fora dos Estados Unidos e Canadá. A própria companhia já reconhece em documentos regulatórios que diferentes leis sobre proteção infantil, privacidade, conteúdo e segurança digital elevam custos e complexidade operacional.

O problema já não é criar controles, mas fazê-los funcionar sob regras diferentes

A Roblox não chega a essa pressão regulatória sem mecanismos de segurança. A empresa tornou obrigatória a verificação de idade para acesso ao chat, criou contas Roblox Kids e Roblox Select para usuários menores de 16 anos e passou a restringir comunicação, catálogo de jogos e determinadas funções de acordo com a faixa etária.

Na Indonésia, porém, o governo quer que essas ferramentas sejam traduzidas para as exigências específicas do PP TUNAS, marco regulatório de proteção infantil no ambiente digital. A ministra Meutya Hafid pediu à empresa maior precisão na verificação de idade, restrições mais fortes à interação de crianças com desconhecidos, medidas para impedir que conversas migrem para fora da plataforma e sistemas capazes de identificar comportamentos de risco antecipadamente.

O PP TUNAS vai além de exigir uma política genérica de segurança. O regime indonésio trabalha com faixas etárias, classificação de risco dos serviços, consentimento parental e restrições de acesso, além de proibir determinadas formas de profiling comercial de crianças. O governo também prevê sanções administrativas que podem chegar à interrupção do acesso à plataforma em caso de descumprimento.

Isso cria uma diferença operacional importante. Uma empresa pode desenvolver globalmente a tecnologia de estimativa de idade, por exemplo, mas precisa decidir quais recursos cada idade pode acessar em cada território, quando será necessário consentimento parental e como determinadas funções devem ser bloqueadas ou liberadas.

A própria documentação da Roblox já admite esse caminho: ao explicar Kids e Select, a empresa afirma que idades, configurações padrão, jogos e recursos podem variar conforme a região. Indonésia, Austrália, Holanda e Nova Zelândia, inclusive, receberam as novas contas antes do lançamento global.

Filipinas mostram que a fragmentação não termina dentro do produto

Nas Filipinas, a pressão surgiu por outra porta.

A National Privacy Commission emitiu Show Cause Orders para Roblox, Meta, Reddit e Discord por suposta falta de conformidade com requisitos de registro previstos na legislação de proteção de dados. A ordem exige explicações das empresas e faz parte de uma investigação mais ampla sobre registro, transparência, tratamento lícito de dados, direitos dos usuários e medidas de segurança. Não representa, por si só, uma conclusão de que a Roblox violou a privacidade de crianças.

As regras filipinas exigem que determinadas organizações registrem seus responsáveis por proteção de dados e sistemas de processamento. Sistemas que envolvam profiling ou decisões automatizadas estão entre aqueles sujeitos obrigatoriamente a registro.

O contraste com a Indonésia mostra a dimensão do problema. Em um mercado, a discussão chega diretamente ao design do produto, acesso por idade e interação entre usuários. No outro, alcança também governança de dados, registro de sistemas e estrutura de compliance.

Portanto, simplesmente aplicar a mesma configuração de chat e verificação etária mundialmente não resolve toda a equação regulatória.

Um produto global ainda é possível; uma política única, cada vez menos

Isso não significa que a Roblox precise construir uma plataforma independente para cada país.

O modelo mais provável é manter uma infraestrutura e um conjunto de proteções globais, mas adicionar uma camada de configuração regulatória capaz de modificar limites de idade, comunicação, conteúdo, consentimento, processamento de dados, relatórios e outros controles conforme a jurisdição.

Na prática, porém, essa camada aumenta a complexidade. Cada diferença precisa ser traduzida em regras de produto, testada, monitorada e atualizada quando a legislação mudar. Um mesmo usuário de 14 anos pode enfrentar permissões diferentes dependendo do país, enquanto um criador pode ter seu conteúdo disponível para determinada faixa etária em um mercado e restrito em outro.

A própria Roblox reconhece esse risco perante investidores. A companhia cita custos jurídicos e de compliance mais elevados em operações internacionais e destaca especificamente a necessidade de cumprir múltiplas leis, por vezes ambíguas ou em evolução, envolvendo proteção infantil, segurança digital, privacidade e conteúdo, principalmente quando aplicadas a menores de 18 anos.

Existe ainda outra tensão: tornar a plataforma mais segura por idade exige saber com maior precisão a idade de quem entra nela. A Roblox utiliza estimativa facial e verificação de identidade para alguns processos e afirma que imagens e vídeos usados na estimativa facial são apagados após o processamento. Ainda assim, quanto mais central a verificação se torna para determinar acesso e comunicação, maior é a necessidade de compatibilizar esse sistema com regras locais sobre dados pessoais e menores.

Pressão local pode acabar redefinindo o produto global

A fragmentação não produz apenas custos. Exigências nacionais também podem virar recursos globais quando resolvem um problema que existe em vários mercados.

Após a reunião com o governo indonésio, Baszucki afirmou que algumas mudanças solicitadas pelo país poderiam entrar na evolução futura da Roblox e posteriormente ser aplicadas em outras regiões com necessidades semelhantes.

Esse será um dos sinais mais relevantes a acompanhar.

A Indonésia pediu relatórios regulares, mensuráveis e transparentes sobre a implementação do PP TUNAS e também pressiona a Roblox a ampliar sua presença local, inclusive com um representante sênior ou escritório em Jacarta. Nas Filipinas, o próximo passo será observar a resposta da empresa às ordens da NPC e se a investigação resulta apenas em regularização administrativa ou em novas exigências.

Para a Roblox, portanto, a questão já não parece ser se existe tecnologia suficiente para construir uma camada global de segurança infantil. O desafio passa a ser manter essa camada suficientemente flexível para cumprir regras nacionais que começam a divergir em produto, dados e responsabilidade.

Quanto mais internacional se torna a plataforma, menos provável é que “segurança global” signifique exatamente a mesma experiência em todos os países.

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