Uma corte federal da Califórnia anulou as principais medidas impostas pelo governo Donald Trump contra a Anthropic e proibiu permanentemente sua aplicação. Em decisão publicada na quinta-feira (27), a juíza Rita F. Lin concluiu que a empresa foi alvo de retaliação ilegal por suas críticas à política do Pentágono para uso militar de inteligência artificial.

A decisão derruba a classificação da Anthropic como “risco à cadeia de suprimentos”, além da ordem que impedia fornecedores e parceiros das Forças Armadas dos Estados Unidos de manter relações comerciais com a companhia. O tribunal também reconheceu violações à Primeira e à Quinta Emendas da Constituição americana.

O processo revelou que parte central da justificativa administrativa usada para sustentar as sanções estava concentrada em um memorando de quatro páginas, elaborado depois de duas das três medidas questionadas. Durante o processo, o próprio governo também reconheceu que a Anthropic não possui acesso remoto capaz de alterar seus modelos depois que eles são implantados em sistemas militares.

Argumento de segurança nacional perdeu força

Um dos principais argumentos apresentados pelo governo era o risco de a Anthropic interferir no funcionamento do Claude depois de sua implantação em ambientes sensíveis.

A corte concluiu, porém, que a empresa não dispõe desse tipo de acesso. O governo também reconheceu que a tecnologia da Anthropic não apresenta, por si só, risco maior à segurança nacional do que outros modelos de IA classificados como sistemas de “caixa-preta”.

Com essa hipótese enfraquecida, o fator específico utilizado pelo Pentágono passou a ser a falta de “confiança” na empresa. Documentos administrativos mencionavam a postura “cada vez mais hostil através da imprensa” da Anthropic e suas críticas à posição do governo sobre o uso de IA.

Para Lin, as evidências mostraram que as medidas buscavam punir a empresa por sua posição pública, e não responder a uma ameaça concreta de sabotagem.

“A invocação vazia da segurança nacional não é um cheque em branco para punir e retaliar críticos do governo”, escreveu a juíza.

A magistrada também classificou como “arbitrária e caprichosa” a decisão do secretário de Defesa, Pete Hegseth, de considerar a Anthropic um risco à cadeia de suprimentos.

Anthropic já trabalhava com áreas sensíveis do governo

O histórico da relação entre a companhia e o governo americano também pesou contra a tese de que a empresa representava uma ameaça.

Agências de inteligência e defesa dos Estados Unidos utilizavam o Claude desde 2024, enquanto o Claude Gov, versão destinada a operações de segurança nacional, estava em uso no Pentágono desde março de 2025.

A Anthropic havia passado ainda por 18 meses de análise para receber autorização de segurança Top Secret. Em junho de 2025, o Claude obteve aprovações para cargas de trabalho FedRAMP High e níveis de impacto 4 e 5 do Departamento de Defesa.

Um mês depois, a empresa recebeu um acordo de até US$ 200 milhões por dois anos para integrar e otimizar capacidades de IA dentro do Pentágono.

Segundo o registro judicial, antes do conflito que levou às sanções, o departamento não havia identificado risco à cadeia de suprimentos relacionado à Anthropic.

A corte também destacou outra contradição. Poucos dias antes das punições, Hegseth chegou a considerar o uso da Lei de Produção de Defesa para classificar a empresa como essencial à segurança nacional e obrigá-la a continuar fornecendo seus serviços.

Mesmo após o início das medidas contra a companhia, o Pentágono continuou negociando contratos com a Anthropic e discutindo possíveis aplicações de novos modelos em áreas sensíveis.

Para a juíza, esse comportamento era incompatível com a alegação de que a companhia representava uma ameaça capaz de justificar medidas tão amplas.

Disputa começou por vigilância e armas autônomas

O conflito ganhou força durante negociações para incluir o Claude na plataforma GenAI.mil. O Pentágono queria contratos que permitissem utilizar os modelos para “todos os usos legais”, sem restrições adicionais impostas pelos fornecedores.

A Anthropic concordou em retirar a maior parte de suas limitações, mas manteve duas: vigilância em massa de cidadãos americanos e armas letais autônomas, nas quais sistemas de IA poderiam participar de decisões letais sem supervisão humana adequada.

A empresa argumentou que os modelos atuais ainda não seriam suficientemente confiáveis para essas aplicações.

Dario Amodei também afirmou durante as negociações que ajudaria o Pentágono a retirar o Claude de seus sistemas caso o departamento considerasse outro fornecedor mais adequado.

Em uma reunião em 24 de fevereiro, Hegseth reconheceu que o Claude tinha capacidades relevantes e que as preocupações apresentadas pela Anthropic eram compreensíveis.

Ao final do encontro, porém, deu à companhia até 27 de fevereiro para aceitar os novos termos.

Caso contrário, segundo documentos apresentados no processo, a Anthropic seria classificada como risco à cadeia de suprimentos e enfrentaria restrições não apenas dentro do Pentágono, mas também em relações com empresas e outras instituições ligadas ao governo federal.

Diante do ultimato, Amodei manteve a posição da empresa. Ele afirmou que a Anthropic não buscava interferir em operações militares específicas, mas considerava que, em um conjunto restrito de situações, a IA poderia “minar, em vez de defender, valores democráticos”.

Medidas atingiram clientes e contratos

Em 27 de fevereiro, Trump determinou que agências federais deixassem de utilizar produtos da Anthropic, prevendo um período de transição de seis meses em alguns casos.

Pouco depois, Hegseth anunciou que fornecedores, parceiros e empresas que negociassem com as Forças Armadas não poderiam manter determinadas relações comerciais com a companhia.

Os efeitos começaram antes mesmo de uma ordem judicial suspender temporariamente as medidas em março.

Segundo documentos apresentados pela empresa, mais de 100 clientes corporativos procuraram a Anthropic com dúvidas ou preocupações sobre as possíveis consequências de continuar associados à companhia.

Um parceiro com contrato anual de vários milhões de dólares substituiu o Claude por um modelo concorrente para atender a um contrato com a Food and Drug Administration.

A Anthropic estimou à corte que, caso as restrições entrassem integralmente em vigor, poderia perder entre 50% e 100% da receita ligada a fornecedores de defesa e clientes relacionados ao Pentágono, além de vários bilhões de dólares em receita em 2026.

Os números são projeções apresentadas pela própria companhia durante o processo.

Corte ordena retirada das sanções

Na decisão final, Lin proibiu permanentemente os órgãos envolvidos de implementar ou fazer cumprir as medidas consideradas ilegais e determinou a retirada de orientações, instruções e comunicações utilizadas para colocá-las em prática.

A classificação da Anthropic como risco à cadeia de suprimentos foi anulada, assim como as restrições que atingiam seus negócios com fornecedores militares.

A corte também anulou medidas adotadas por nove órgãos federais, entre eles o Pentágono, o Departamento de Estado, o Tesouro, o Departamento de Segurança Interna, o Departamento de Energia e a Administração de Serviços Gerais.

A decisão, contudo, não obriga o Pentágono a continuar utilizando o Claude ou contratar a Anthropic.

O departamento permanece livre para escolher outros fornecedores de inteligência artificial, desde que suas decisões respeitem a legislação e as garantias constitucionais.

Após a decisão, a porta-voz da Anthropic Danielle Ghiglieri afirmou que a companhia recebeu positivamente a conclusão da corte de que a classificação como risco à cadeia de suprimentos era ilegal.

Segundo ela, a empresa pretende continuar trabalhando com o governo americano no uso de inteligência artificial para segurança nacional.

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