Funcionários da Google DeepMind no Reino Unido estão pressionando a empresa a retirar cláusulas contratuais que os proíbem de criticá-la publicamente pelo resto da vida, inclusive após o desligamento. A restrição foi identificada em documentos analisados pelo The Washington Post, que revelou a disputa interna em reportagem publicada na terça-feira (3).
O jornal examinou um contrato e entrevistou dois funcionários da divisão de inteligência artificial do Google. Segundo os relatos, os acordos de não depreciação da empresa podem impedir pesquisadores de alertar publicamente sobre riscos associados às tecnologias que desenvolvem.
A controvérsia ganhou força após a saída de Sofia Liguori, engenheira de pesquisa que deixou a DeepMind em outubro por discordar do envolvimento crescente do Google em projetos militares de inteligência artificial.
Em entrevista à BBC, Liguori afirmou que decidiu desconsiderar a restrição contratual para manifestar suas preocupações. A pesquisadora disse que, em princípio, estava proibida de criticar o Google durante toda a vida.
O episódio levou outros funcionários britânicos a revisar seus contratos e identificar cláusulas semelhantes. Dezenas de empregados participaram de uma discussão interna sobre o assunto, incluindo trabalhadores que fizeram referências ao romance distópico 1984, de George Orwell.
Os pesquisadores temem que a possibilidade de consequências jurídicas incentive a autocensura, mesmo quando as informações discutidas envolvam riscos relevantes para a sociedade.
Google mudou novos contratos, mas funcionários exigem revisão dos antigos
Diante das críticas, um executivo do Google informou aos empregados que a companhia não aplica a restrição a ex-funcionários.
Um porta-voz também confirmou ao The Washington Post que a empresa atualizou recentemente seus contratos de contratação, eliminando a parte que estendia a proibição de críticas para depois do encerramento do vínculo profissional.
Segundo o Google, existem canais internos para que funcionários comuniquem preocupações relacionadas à segurança e à responsabilidade no desenvolvimento de inteligência artificial.
A resposta, porém, não encerrou a disputa. Funcionários querem que as cláusulas sejam retiradas também dos contratos já assinados, em vez de depender exclusivamente de uma declaração da empresa sobre sua aplicação.
A legislação britânica protege trabalhadores que denunciam determinadas irregularidades de interesse público, inclusive após deixarem o emprego. A proteção depende de requisitos legais específicos e não significa que toda crítica pública esteja automaticamente protegida.
Os trabalhadores argumentam que a permanência das cláusulas gera insegurança sobre o que podem revelar sem enfrentar consequências jurídicas. Não foi divulgado quantos funcionários da DeepMind estão sujeitos à restrição vitalícia.
A controvérsia ocorre em meio a questionamentos internos sobre o uso militar de IA. Em 2025, o Google retirou de seus princípios de inteligência artificial compromissos anteriores que excluíam aplicações em armas e vigilância. A mudança também provocou críticas de pesquisadores preocupados com o direcionamento da tecnologia.



