Casamentos entre humanos e chatbots ainda são raros, mas já mobilizam legisladores nos EUA: projetos de lei em vários estados tentam impedir que inteligências artificiais tenham direitos legais, como o casamento, revelou a revista WIRED.

Ofensiva legislativa

No Missouri, o senador estadual Joe Nicola, republicano, apresentou em janeiro o AI Non-Sentience and Responsibility Act, que nega a sistemas de IA consciência, autoconsciência e direitos de cônjuge ou parceiro doméstico. O texto passou no Senado estadual, mas foi rejeitado por unanimidade em uma comissão da Câmara em maio. Nicola afirma que prepara uma nova versão.

Desde 2022, foram apresentados 23 projetos de lei para restringir direitos legais de IA. Idaho, Dakota do Norte, Utah e Tennessee aprovaram leis que proíbem a personificação de IA. A lei do Tennessee, aprovada em abril, é a única que exclui explicitamente 'inteligência artificial, algoritmo de computador, programa de software, hardware ou qualquer tipo de máquina' da definição de pessoa.

Em Ohio, o deputado estadual Thaddeus J. Claggett apresentou em outubro de 2025 um projeto que classifica IA como 'entidade não senciente'. O texto ainda está pendente na Câmara. 'Voz não é alma', afirmou Claggett.

Casos reais

O fenômeno ganhou tração com aplicativos de companhia como Character.AI, Kindroid e Replika, onde usuários fazem votos simbólicos com chatbots. A plataforma OpenVows vende, por US$ 15, um 'certificado de compromisso' para casais com IA. Em 2024, Andrea Hopf criou o serviço de planejamento de casamentos 3M Events depois que seu companheiro de IA a pediu em casamento com um anel gerado por inteligência artificial.

Estudo da Harvard Business Review que analisou 12.600 usos de IA entre março de 2025 e fevereiro de 2026 apontou companhia e terapia como principais usos. O Institute for Family Studies afirma que um quarto dos jovens acredita que a IA pode substituir o romance humano.

Kevin Breen, cerimonial da capela Las Vegas Immersive Weddings, disse ter recebido no ano passado o pedido de uma mulher da Califórnia que queria se casar com seu chatbot. 'Ela parecia totalmente normal e divertida', afirmou.

Debate jurídico

Nicola, que se apresenta como pastor e defende o 'casamento bíblico' entre homem e mulher, questionou: 'Se vamos permitir que homens ou mulheres se casem com uma máquina, o que os impede de casar com um animal ou uma árvore?' Ele defende que o Congresso dos EUA aprove uma proibição nacional da personificação de IA.

Shawn Bayern, professor da Faculdade de Direito da Universidade Estadual da Flórida, argumenta que a análise deve ser feita direito por direito. 'Direitos nem sempre são sobre dignidade, mas sobre função útil', disse. Para ele, permitir que uma IA assine contrato é diferente de permitir que ela se case.

Críticos dos projetos, como a Câmara de Comércio do Missouri e o grupo Americans for Prosperity, afirmam que as restrições podem sufocar a inovação. Nicola reconheceu a resistência: 'Os legisladores estão hesitantes em fazer algo que possa atrapalhar a inovação'. No Delaware, a secretária de Estado Charuni Patibanda-Sanchez propôs criar 'empresas de inteligência artificial', que teriam capacidade de possuir ativos e litigar.

Continue no Radar