A expansão comercial dos robotáxis nos Estados Unidos está intensificando disputas sobre segurança, empregos e limites para o crescimento das frotas autônomas. Estados e cidades discutem novas regras enquanto empresas como Waymo, Zoox e Tesla ampliam operações, segundo levantamento publicado pelo The Verge no domingo (24).
A pressão também chegou ao governo federal. A Administração Nacional de Segurança no Tráfego Rodoviário dos EUA (NHTSA) alertou em 8 de julho que veículos autônomos incapazes de interagir com segurança com policiais, bombeiros e equipes médicas representam risco ao público.
O órgão afirmou ter identificado casos de veículos sem motorista entrando em áreas de emergência, bloqueando ambulâncias e caminhões de bombeiros ou deixando de reagir corretamente a luzes de emergência, fumaça, fogo, sinalizadores e cones. A NHTSA cobrou soluções das empresas e afirmou que poderá recorrer a medidas de fiscalização diante de problemas relevantes de segurança.
Estados e cidades discutem limites para expansão
A discussão ocorre enquanto diferentes regiões dos EUA adotam respostas distintas ao avanço da tecnologia.
Em Nova York, a governadora Kathy Hochul retirou neste ano uma proposta que permitiria abrir caminho para serviços comerciais sem motorista fora da cidade de Nova York. A medida enfrentou resistência de taxistas, sindicatos e parlamentares, e a operação comercial de robotáxis continua proibida no estado.
Em Washington, D.C., uma proposta para legalizar o serviço enfrenta oposição sindical e inclui a possibilidade de limitar as operações a 200 veículos, além de cobrar US$ 0,15 por milha rodada. Os recursos seriam destinados ao transporte público e ao apoio de trabalhadores afetados pela automação.
A Waymo apoia a criação de uma estrutura regulatória na capital americana, mas considera que um teto permanente de 200 veículos poderia limitar o serviço. A empresa também demonstrou abertura para uma cobrança destinada ao transporte público e aos trabalhadores, embora questione a adoção de uma taxa por milha.
Na Califórnia, autoridades passaram em julho a permitir que fabricantes de veículos autônomos sejam formalmente responsabilizados quando seus carros sem motorista violarem regras de trânsito.
Em San Francisco, o prefeito Daniel Lurie, que apoia a tecnologia, passou a defender regras mais rígidas depois de episódios em que veículos da Waymo prejudicaram o tráfego durante emergências e grandes eventos.
Waymo já supera 500 mil viagens pagas por semana
A pressão regulatória cresce ao mesmo tempo em que as principais empresas aumentam suas operações.
A Waymo mantém mais de 3.500 veículos em serviço público em 11 cidades americanas e realiza mais de 500 mil viagens pagas por semana. A escala, porém, ainda representa uma pequena parcela do mercado de transporte por aplicativo.
A Uber, por comparação, realiza cerca de 40 milhões de viagens por dia globalmente. No segundo trimestre, a companhia informou que 10,2 milhões de motoristas e entregadores obtiveram renda por meio de sua plataforma.
A Zoox começou a oferecer viagens pagas em Las Vegas com seu veículo projetado especificamente para condução autônoma, sem volante. A empresa também mantém viagens gratuitas em San Francisco dentro de seu programa Explorer e testa a tecnologia em dez cidades.
A Tesla, que iniciou seu serviço Robotaxi com monitor de segurança a bordo, também busca ampliar a operação sem supervisão antes da chegada do Cybercab, veículo desenvolvido especificamente para transporte autônomo.
Sindicatos temem impacto sobre milhões de empregos
O avanço dos robotáxis abriu outra frente de disputa em torno do efeito da automação sobre o trabalho.
Os Teamsters, um dos maiores sindicatos dos EUA, afirmam que a condução autônoma pode afetar não apenas motoristas de aplicativos, mas também caminhoneiros, entregadores e outros profissionais do transporte comercial.
A entidade tem defendido que veículos autônomos pesados, como caminhões, mantenham um operador humano treinado a bordo. Propostas com essa exigência já foram aprovadas duas vezes pelo Legislativo da Califórnia, mas vetadas pelo governador Gavin Newsom.
A Waymo reconhece que veículos autônomos podem substituir parte do trabalho atualmente realizado por motoristas, mas argumenta que as novas frotas também exigem técnicos, mecânicos, profissionais de suporte remoto e equipes de operação.
A empresa considera, porém, que ainda é cedo para determinar se a tecnologia criará mais empregos do que eliminará.
Empresas também defendem regras nacionais
Apesar das divergências com governos e sindicatos, as próprias companhias do setor passaram a defender uma regulamentação mais clara.
A CEO da Zoox, Aicha Evans, afirmou que a indústria precisa ser regulada. A empresa defende maior uniformidade federal e diz trabalhar com autoridades e equipes de emergência antes de entrar em novos mercados.
A Waymo também apoia a criação de um padrão nacional de segurança para veículos autônomos, incluindo requisitos mínimos de testes, design dos veículos e compartilhamento de dados.
A proposta da companhia é manter a segurança dos veículos sob responsabilidade federal, deixar as regras de trânsito para os estados e permitir que cidades tratem de questões locais, como áreas de embarque, fiscalização e resposta a emergências.
A NHTSA já iniciou a elaboração da primeira grande atualização das orientações federais para desenvolvedores de veículos autônomos desde 2017 e trabalha no desenvolvimento de padrões nacionais de desempenho para a tecnologia.
O órgão afirma apoiar o potencial dos veículos autônomos para reduzir erros humanos, mas deixou claro que pretende continuar usando sua autoridade de fiscalização quando identificar riscos relevantes.



