Os Estados Unidos ampliaram o alcance das sanções contra o Irã ao incluir o setor de ativos digitais do país entre as áreas da economia sujeitas a sanções, uma mudança que aumenta o risco para empresas estrangeiras que operem ou prestem serviços ligados ao mercado cripto iraniano. A medida foi anunciada pelo Departamento do Tesouro na segunda-feira (24), dentro de um pacote que também atingiu uma rede acusada de movimentar mais de US$ 100 milhões em criptomoedas para facilitar vendas de petróleo iraniano.

A decisão faz parte da Operation Economic Outcast, campanha lançada pelo governo americano contra fontes de receita e redes financeiras associadas ao governo iraniano e ao Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC). O Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC) sancionou quase 60 pessoas, empresas e embarcações ligadas a atividades que vão de petróleo e tecnologia militar a operações cibernéticas.

Cripto passa a ser um setor sancionável da economia iraniana

A principal mudança para o mercado de criptomoedas está em uma nova determinação emitida sob a Ordem Executiva 13902. Até agora, Washington vinha concentrando ações em exchanges, carteiras e indivíduos específicos. Com a nova regra, o próprio setor de ativos digitais do Irã passa a fazer parte das áreas econômicas que podem dar origem a sanções.

Na prática, o OFAC afirma que pode sancionar pessoas ou empresas, independentemente do país em que estejam localizadas, caso determine que elas operam no setor iraniano ou fornecem serviços em apoio a ele. Isso amplia a exposição de exchanges, intermediários financeiros e outros negócios estrangeiros que mantenham relações consideradas relevantes com o ecossistema cripto do Irã.

A determinação não se limita aos ativos digitais. Tecnologia, ouro, aviação e transporte marítimo também foram adicionados às áreas cobertas pela medida. Elas se somam aos setores financeiro, petrolífero e petroquímico, que já estavam sujeitos a mecanismos semelhantes.

O Tesouro diz que as criptomoedas passaram a ser usadas com frequência crescente pelo governo iraniano para contornar restrições financeiras e realizar transações relacionadas ao IRGC e a integrantes do regime.

A ofensiva sobre o mercado cripto vinha sendo ampliada nos últimos meses. Em junho, o OFAC sancionou a Nobitex, maior exchange de ativos digitais do Irã, além de Wallex, Bitpin e Ramzinex. Dados divulgados pelo próprio Tesouro apontaram que a Nobitex havia processado mais de 50% de todos os fluxos de entrada de ativos digitais iranianos em 2025.

Em agosto, o governo americano voltou ao setor ao sancionar outras estruturas, incluindo a exchange Aban Tether. O OFAC já havia alertado que instituições e empresas fora dos Estados Unidos poderiam enfrentar sanções ao realizar determinadas transações com plataformas iranianas bloqueadas.

Broker teria movimentado US$ 100 milhões em cripto para venda de petróleo

O novo pacote também conecta diretamente criptomoedas a uma das principais fontes de receita do Irã: as exportações de petróleo.

O Tesouro sancionou o cidadão ucraniano Ivan Obukhov, residente nos Emirados Árabes Unidos, acusado de atuar há anos como intermediário de embarcações da chamada “frota fantasma” iraniana — navios utilizados em estruturas destinadas a transportar petróleo e contornar sanções internacionais.

Segundo o governo americano, Obukhov facilitou embarques de petróleo em benefício das Forças Armadas iranianas e de seus aliados. Desde 2023, ele teria processado mais de US$ 100 milhões em pagamentos com criptomoedas para viabilizar vendas de petróleo em nome da Força Quds do IRGC.

O Tesouro afirma ainda que Obukhov participou da compra de embarcações posteriormente utilizadas para evasão de sanções. Ele é proprietário e gerente-geral da Foscom FZE, companhia sediada nos Emirados Árabes Unidos e também incluída nas sanções.

A rede marítima atingida pelo pacote se estende por diferentes jurisdições. O governo americano cita intermediários e empresas nos Emirados Árabes Unidos, Hong Kong, China, Singapura, Suíça e Europa envolvidos no transporte de petróleo ou na movimentação de receitas para estruturas ligadas ao IRGC.

Cinco navios também foram identificados como propriedades bloqueadas. Entre eles estão os petroleiros Quantum Hope e Voyage Elite, que, segundo o Tesouro, transportaram milhões de barris de petróleo iraniano para a China em 2026.

Sanções também atingem hackers ligados ao governo iraniano

O pacote americano abrange ainda uma rede de hackers que Washington relaciona ao Ministério da Inteligência e Segurança do Irã.

O Tesouro afirma que integrantes do grupo comprometeram empresas americanas de setores como energia, defesa, saúde, tecnologia e serviços financeiros, além de órgãos governamentais locais, estaduais e federais. Parte dos integrantes também teria realizado ataques com objetivo de enriquecimento pessoal.

Um dos sancionados, Arman Kahzadian, é acusado de se concentrar em roubos de ativos digitais. O governo americano afirma que ele assumiu ilegalmente o controle, em 2023, de uma carteira que continha mais de US$ 30 mil em bitcoin.

A ação foi coordenada com o FBI e ocorreu seis dias depois de promotores americanos divulgarem uma acusação contra 17 integrantes do Mabna Institute, grupo iraniano apontado como responsável por uma extensa campanha de invasões contra universidades, empresas e órgãos governamentais.

Empresas estrangeiras entram no alcance da ofensiva

A expansão das sanções aumenta a importância das regras americanas também para negócios que não estão sediados nos Estados Unidos.

O Tesouro afirma que violações podem gerar penalidades civis ou criminais e que instituições financeiras estrangeiras envolvidas em determinadas transações com pessoas sancionadas podem enfrentar sanções secundárias, incluindo restrições ao acesso ao sistema financeiro americano.

Bens e interesses pertencentes aos indivíduos e empresas designados que estejam nos Estados Unidos ou sob controle de americanos também ficam bloqueados. A regra se estende, em geral, a companhias controladas em 50% ou mais por pessoas sancionadas.

Ao transformar ativos digitais em um setor formalmente coberto pela Ordem Executiva 13902, Washington amplia a ofensiva para além de exchanges ou carteiras já identificadas. O foco passa a incluir também empresas e intermediários estrangeiros que continuem prestando suporte relevante à infraestrutura cripto iraniana.

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