Uma investigação publicada pela empresa de inteligência blockchain Bitquery na quinta-feira (5) identificou movimentações de fundos ligados à corretora brasileira Mercado Bitcoin por aproximadamente quatro horas após a empresa anunciar que havia contido um ataque cibernético. A análise reconstrói transações realizadas em 2 de novembro e aponta que milhares de endereços de depósito continuaram sendo esvaziados depois do comunicado oficial.
Na manhã do ataque, às 9h56 pelo horário de Brasília (12h56 UTC), o Mercado Bitcoin informou que havia identificado e contido rapidamente um incidente de segurança. Entretanto, segundo a Bitquery, 36.042 endereços de depósito na rede Ethereum transferiram seus saldos para endereços atribuídos ao invasor entre 12h27 e 16h56 UTC.
A reconstrução acrescenta uma dimensão temporal ao incidente, inicialmente noticiado por transferências milionárias de carteiras da corretora. Os registros mostram atividades posteriores à declaração de contenção, mas não comprovam, isoladamente, uma segunda invasão ou que todos os sistemas da plataforma permaneceram comprometidos.
O que mostram os endereços após o comunicado de contenção
Segundo a Bitquery, a primeira fase do ataque atingiu carteiras operacionais da corretora em dez redes blockchain, com movimentações concentradas em aproximadamente 25 minutos. Horas depois, o invasor começou a retirar valores de endereços utilizados para receber depósitos.
Na Ethereum, os 36.042 endereços esvaziados continham aproximadamente US$ 266 mil. Cerca de 91% apresentavam saldos inferiores a US$ 10, enquanto apenas 113 concentravam 61% do valor retirado desses endereços.
O levantamento também identificou transferências posteriores ao anúncio em outras redes. Na BNB Chain, uma carteira associada à corretora enviou aproximadamente US$ 124 mil ao invasor até as 18h08 UTC, mais de cinco horas depois do comunicado. Na Base, outros 308 endereços de depósito movimentaram cerca de US$ 16 mil naquela noite.
A capacidade de movimentar fundos diretamente desses endereços sugere, na avaliação da Bitquery, que o invasor obteve acesso às chaves de assinatura ou a algum mecanismo capaz de autorizar as transações. Os dados públicos, porém, não permitem determinar como esse acesso foi obtido.
A quantidade de endereços afetados não equivale necessariamente ao número de clientes prejudicados, já que uma mesma pessoa pode utilizar diferentes endereços de depósito.
Prejuízo estimado e valores bloqueados
A Bitquery estima que US$ 48,6 milhões tenham sido retirados de carteiras associadas ao Mercado Bitcoin em 11 blockchains, considerando os preços dos ativos no momento das transações. O relatório apresenta um alcance mais amplo que o recorte de dez redes mencionado na cobertura inicial do CoinDesk, sem uma conciliação explícita entre as contagens.
A empresa de análise identificou aproximadamente US$ 11,8 milhões em ativos congelados por cinco emissores, principalmente Tether, Circle e Paxos. O valor difere dos US$ 11,2 milhões informados pela corretora em 2 de novembro, quando os bloqueios ainda estavam em andamento.
Em atualização de 4 de novembro, o Mercado Bitcoin informou que o total bloqueado com apoio de parceiros já superava US$ 15 milhões. Essa cifra possui um escopo de recuperação mais amplo que o levantamento específico sobre congelamentos por emissores.
A corretora sustenta que seus clientes não perderão ativos em decorrência do incidente e prometeu recompor os saldos com recursos próprios. A empresa também afirmou que o desvio atingiu suas carteiras quentes, utilizadas nas operações cotidianas.
A retomada da plataforma está prevista para começar em 9 de novembro, inicialmente com acesso pelo site para consulta de saldos, extratos e investimentos. Saques, depósitos e negociações dependerão de validações adicionais de segurança, sem data confirmada para normalização.
O CoinDesk informou não ter obtido manifestação imediata do Mercado Bitcoin sobre a nova investigação. Os registros analisados pela Bitquery documentam a continuidade das transferências após o comunicado, mas não permitem concluir se os clientes sofrerão perdas financeiras ou qual é o estado atual de segurança dos endereços envolvidos.



