Motores retirados de aviões aposentados estão ganhando uma nova função nos Estados Unidos: gerar eletricidade para data centers de inteligência artificial. Uma investigação publicada pelo The New York Times na terça-feira (3) identificou oito turbinas convertidas instaladas pela xAI, empresa de Elon Musk, no Mississippi, em meio à corrida por fontes de energia capazes de atender à expansão da infraestrutura de IA.

A adaptação permite aproveitar equipamentos originalmente desenvolvidos para impulsionar aeronaves. Na conversão, a ventoinha frontal é removida, a câmara de combustão é modificada para utilizar gás natural e o eixo do motor passa a movimentar um gerador elétrico.

A ProEnergy, fabricante dos geradores utilizados pela xAI, está entre as empresas que exploram esse mercado. A companhia reaproveita um modelo de turbina da General Electric encontrado em aeronaves da Boeing.

A principal vantagem está na rapidez de implantação. Operadoras de data centers enfrentam longas esperas para conseguir novas conexões à rede elétrica ou adquirir turbinas convencionais, enquanto a demanda por capacidade computacional continua crescendo.

Bill Kleyman, diretor-executivo da empresa de infraestrutura de IA Apolo, resumiu essa urgência em entrevista ao New York Times. Segundo ele, desenvolvedores passaram a priorizar a velocidade de acesso à eletricidade, com uma pergunta central: “Em quanto tempo você consegue me fornecer energia?”

A solução, entretanto, apresenta limitações. Turbinas aeronáuticas reaproveitadas tendem a ser menos eficientes que equipamentos projetados especificamente para usinas convencionais a gás. Isso também significa que são necessárias mais unidades para produzir a mesma quantidade de eletricidade.

Licenças ambientais revelam diferenças entre turbinas convertidas

Os documentos ambientais examinados pelo New York Times mostram uma diferença importante entre os geradores convertidos e outros equipamentos instalados no empreendimento da xAI.

As oito turbinas identificadas no Mississippi possuem autorização estadual para emitir monóxido de carbono a uma taxa duas vezes maior que a permitida para outras turbinas no mesmo local. Para compostos orgânicos voláteis, o limite autorizado é 25% superior.

Esses percentuais representam limites estabelecidos nas licenças, e não emissões efetivamente medidas. Portanto, os documentos não demonstram, por si só, que os equipamentos estejam liberando poluentes nessas proporções durante a operação.

A diferença é relevante porque ambos os grupos de substâncias apresentam riscos à saúde. Organizações ambientalistas questionam a adoção de motores mais antigos e menos eficientes para abastecer instalações que exigem grandes volumes de eletricidade.

Patrick Anderson, advogado do Southern Environmental Law Center, afirmou ao jornal que a geração elétrica, especialmente para uma tecnologia como a inteligência artificial, deveria se tornar progressivamente mais limpa, e não mais poluente.

A ProEnergy informou que a demanda por seus equipamentos entre operadores de data centers já supera a de concessionárias tradicionais de energia. A investigação também identificou projetos de outras empresas que pretendem utilizar turbinas aeronáuticas convertidas.

Procuradas pelo New York Times, a xAI e a ProEnergy não comentaram as preocupações ambientais relacionadas aos equipamentos.

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