Vinte e nove organizações hospitalares da Inglaterra declararam que a plataforma de dados fornecida pela Palantir não estava em funcionamento ou que não utilizavam suas aplicações, apesar de constarem entre as instituições que, segundo o NHS England, já obtinham benefícios com o sistema. A divergência foi revelada pelo The Guardian nesta segunda-feira (2), com base em mais de 100 pedidos de acesso à informação apresentados pela organização médica Medact.
A investigação coloca em discussão os resultados divulgados pelo serviço público de saúde britânico sobre a Federated Data Platform (FDP), contratada por £330 milhões de um consórcio liderado pela Palantir. O sistema foi desenvolvido para conectar informações armazenadas em diferentes bases hospitalares e auxiliar atividades como agendamento de cirurgias, gestão de leitos e planejamento de atendimentos.
Entre as instituições consultadas, o Nottingham University Hospitals informou que ainda não havia estabelecido um cronograma de implementação. O Mersey Care declarou que a plataforma não havia entrado em operação, enquanto o University Hospitals of North Midlands afirmou não pretender adotá-la.
As respostas também expõem diferenças entre disponibilizar a infraestrutura e utilizar efetivamente suas ferramentas. O Torbay and South Devon, por exemplo, informou que não utilizava a FDP operacionalmente, mas era classificado pelo NHS como ativo porque possuía infraestrutura para transmissão de dados.
Essa distinção é importante para interpretar os indicadores oficiais. Uma organização pode utilizar funcionalidades administrativas, como envio de informações ou cálculo de custos de tratamentos, sem necessariamente empregar as aplicações destinadas à assistência clínica. Portanto, a presença de um hospital nas estatísticas de implantação não demonstra, isoladamente, benefícios diretos aos pacientes.
Em resposta ao Guardian, o NHS England sustentou que quase 140 organizações já haviam relatado benefícios provenientes das diferentes ferramentas disponíveis, incluindo melhorias na integração de informações e na eficiência das equipes.
A Palantir também defendeu os resultados da plataforma, apontando aproximadamente 117 mil cirurgias adicionais registradas por instituições usuárias e reduções nos atrasos de alta hospitalar. Entretanto, o próprio NHS reconheceu anteriormente que seus dados não permitem estabelecer uma relação direta de causa e efeito entre a adoção da FDP e os resultados observados.
Chi Onwurah, presidente da comissão parlamentar britânica de ciência e tecnologia, questionou a diferença entre os benefícios apresentados e a utilização descrita pelos hospitais. A parlamentar defendeu que o governo utilize a possibilidade de encerramento contratual e abra uma nova concorrência.
Governo britânico precisa decidir sobre contrato até dezembro
A investigação surge às vésperas de uma decisão sobre a continuidade do projeto. Um documento publicado pela Biblioteca da Câmara dos Comuns em 29 de outubro de 2026 confirma que o governo precisa decidir até dezembro se prorrogará o contrato com o consórcio liderado pela Palantir.
O acordo entrou em vigor em março de 2024, com duração inicial de três anos e possibilidades de extensão por até sete anos no total. A primeira oportunidade de encerramento está prevista para março de 2027, mediante comunicação antecipada ao fornecedor.
Em depoimento parlamentar de junho, Ayub Bhayat, diretor de dados do NHS England, explicou que uma eventual decisão de não prorrogar o contrato precisaria ser comunicada até dezembro de 2026.
Duas comissões parlamentares já recomendaram que o governo não estenda o acordo. O Executivo britânico, por sua vez, informou que seguirá os procedimentos habituais de avaliação contratual antes de anunciar sua decisão.
Há ainda uma questão relacionada ao calendário das evidências. Segundo o documento parlamentar, uma avaliação independente da FDP, contratada em fevereiro de 2026, deverá ser publicada somente depois da decisão sobre a prorrogação.
A medida significa que o governo terá de deliberar sobre a continuidade do contrato antes da divulgação prevista dessa avaliação independente, enquanto permanecem questionamentos sobre os critérios utilizados para medir a adoção e os benefícios da plataforma.



