Um novo estudo da Anthropic estima que robôs disponíveis hoje já conseguem executar 74% das tarefas físicas realizadas nos Estados Unidos em algum tipo de ambiente. Essas atividades representam cerca de 34% de todas as horas trabalhadas no país. Mas o salto da capacidade técnica para a substituição econômica continua enorme: apenas 0,3% do trabalho seria competitivo em custo com robôs nas condições atuais.

Essa diferença ajuda a responder uma questão que as demonstrações cada vez mais sofisticadas de robótica tendem a esconder. O principal obstáculo à automação física em massa já não é simplesmente fazer uma máquina executar uma tarefa. É fazer isso com confiabilidade, no ambiente real e por um custo inferior ao trabalho humano.

Capacidade não significa que o trabalho esteja pronto para ser automatizado

O número de 74% exige uma distinção importante. A Anthropic não conclui que robôs poderiam assumir imediatamente três quartos do trabalho físico existente.

A maior parcela dessas tarefas só pode ser realizada quando o ambiente é adaptado à máquina. Pela classificação do estudo, 23% de todo o tempo de trabalho corresponde a atividades que robôs conseguem executar em ambientes especificamente construídos para eles, como linhas industriais. Outros 10% podem ocorrer em locais humanos estruturados, como centros logísticos.

Somente cerca de 1% de todo o trabalho, ou 2% das tarefas físicas, já pode ser executado por robôs em ambientes não estruturados, como ruas e outros espaços sujeitos a mudanças difíceis de prever.

Exposição das tarefas da economia dos EUA à automação por robôs, segundo a Anthropic.
Distribuição das tarefas nos EUA por nível de exposição à automação robótica.

Isso transforma o ambiente em parte da equação econômica. Uma empresa pode automatizar uma tarefa não apenas comprando um robô melhor, mas redesenhando processos, reduzindo exceções e tornando o espaço ao redor da máquina mais previsível.

É justamente por isso que fábricas e centros logísticos aparecem antes de hospitais, obras, residências ou operações de manutenção dispersas.

Logística mostra onde a conta começa a fechar

Os investimentos atuais em robótica já seguem esse padrão. Dados divulgados pela International Federation of Robotics mostram que 117.500 robôs profissionais para transporte e logística foram vendidos em 2025, alta de 21%. A categoria respondeu por 47% de todas as unidades de robôs profissionais comercializadas no mundo.

A Amazon oferece uma demonstração da escala possível quando o ambiente pode ser organizado em torno da automação. A empresa atingiu em 2025 a marca de 1 milhão de robôs implantados em mais de 300 instalações, enquanto sistemas de inteligência artificial passaram a coordenar o deslocamento dessas máquinas dentro dos centros de distribuição.

Amazon Vulcan automatiza a movimentação de itens em centros de distribuição da empresa.
Robô Amazon Vulcan operando em um centro de distribuição da Amazon.

O movimento não elimina imediatamente o trabalho humano. Ele tende primeiro a decompor funções em tarefas automatizáveis e tarefas que permanecem com pessoas.

O Vulcan, por exemplo, consegue manipular aproximadamente 75% dos diferentes tipos de itens armazenados nos centros da Amazon em velocidades comparáveis às dos funcionários. Quando encontra um objeto que não consegue manipular, o sistema pode transferir a tarefa para uma pessoa.

Esse modelo ajuda a explicar por que o impacto pode aparecer antes na composição do trabalho do que no desaparecimento completo de uma ocupação.

O custo ainda protege grande parte das ocupações físicas

A barreira mais ampla aparece quando a Anthropic coloca hardware, instalação, manutenção, energia e supervisão na mesma conta que o salário humano.

Para empacotadores, uma das poucas ocupações em que essa relação já se aproxima da paridade, o estudo estima que os equipamentos necessários custariam mais de US$ 2 milhões para compra e instalação, mas poderiam substituir a produção anual de aproximadamente 14 trabalhadores.

Depois de distribuir o investimento ao longo da vida útil dos equipamentos e adicionar os custos operacionais, a despesa fica em torno de US$ 45 mil por trabalhador equivalente ao ano, contra aproximadamente US$ 49 mil em remuneração humana.

Não por acaso, o Bureau of Labor Statistics projeta redução de 5% no número de empacotadores manuais entre 2025 e 2035, de 555.500 para 528.000 trabalhadores.

Mas essa lógica muda rapidamente fora de processos altamente repetitivos. Soldagem, limpeza e diversas funções de manutenção já possuem robôs capazes de realizar partes importantes do trabalho. Automatizar o conjunto necessário de atividades, porém, ainda pode custar várias vezes mais do que manter trabalhadores humanos.

Até os robotáxis mostram esse limite. A Anthropic calcula que o custo esteja apenas cerca de US$ 7 mil acima do equivalente humano, mas regulação e outras fricções ainda restringem a adoção.

Ao mesmo tempo, o BLS projeta crescimento de 12% no emprego de motoristas de táxi entre 2025 e 2035, lembrando que capacidade tecnológica e substituição efetiva não avançam necessariamente no mesmo ritmo.

Destreza continua sendo um gargalo maior que raciocínio

Preço também não resolve todas as tarefas.

A Anthropic estima que limitações de capacidade ainda impedem a adoção em cerca de 70% das tarefas físicas. O principal problema não está no raciocínio, mas na manipulação: aproximadamente metade dessas atividades exigiria avanços adicionais na capacidade de tocar, agarrar, posicionar e movimentar objetos.

Deficiências de planejamento e raciocínio aparecem como principal limitação em apenas 8% das tarefas físicas. Isso significa que uma evolução rápida dos modelos de IA não elimina automaticamente os obstáculos mecânicos.

Desembaraçar cabos, trabalhar com peças posicionadas de formas imprevisíveis, executar reparos em locais apertados ou manipular pessoas com segurança exigem uma combinação de percepção, força, mobilidade e controle fino que ainda é difícil de reproduzir de maneira econômica.

Há ainda barreiras que não desaparecem com hardware melhor. Segundo o estudo, regulamentações atuais limitariam a automação de 14% das tarefas físicas, enquanto preferências humanas restringiriam cerca de um quarto delas.

Saúde, educação e serviços que envolvem contato direto estão particularmente expostos a esses fatores, mesmo quando a capacidade técnica evolui.

A curva de custos pode definir a velocidade da próxima onda

A Anthropic calcula que os preços dos robôs vêm recuando historicamente cerca de 3% ao ano. Mantido esse ritmo, seria necessária uma redução de aproximadamente 70% nos custos para que robôs se tornassem competitivos em 10% do trabalho atual.

Isso levaria cerca de quatro décadas.

Queda hipotética no custo dos robôs amplia o número de tarefas economicamente expostas à automação.
Gráfico mostra como reduções no custo dos robôs aumentam a exposição do trabalho físico à automação.

Esse prazo não deve ser tratado como previsão. O próprio estudo trabalha com cenários simplificados e mantém constantes elementos que podem mudar, como salários, escolha das tarefas priorizadas pela indústria e velocidade de avanço do hardware.

Em um cenário acelerado, no qual o custo ajustado à qualidade cai até quatro vezes mais rápido e as capacidades avançam ao dobro do ritmo histórico, metade do trabalho físico atual poderia atingir competitividade econômica até 2050. No cenário baseado na tendência histórica, esse ponto só seria alcançado em 2085.

A diferença entre os dois cenários mostra onde observar os próximos sinais.

O indicador mais relevante pode não ser quantas novas tarefas um humanoide consegue executar em uma demonstração, mas quanto custa executar cada tarefa durante milhares de horas, quantas exceções ainda exigem intervenção humana e quanto do ambiente precisa ser reconstruído para a máquina funcionar.

O estudo também oferece uma evidência histórica para essa leitura. Ao reconstruir a exposição das ocupações desde 1977, os pesquisadores encontraram quedas posteriores maiores de emprego e salários nos trabalhos que já eram mais acessíveis aos robôs existentes naquele momento.

A capacidade, portanto, importa como sinal antecipado. Mas a economia determina quando esse potencial começa a ganhar escala.

Hoje, essa combinação aponta primeiro para transporte, movimentação de materiais, armazenamento e outros processos altamente estruturados. Quanto mais variável for o ambiente e maior a necessidade de destreza, julgamento presencial ou contato humano, maior continua sendo a distância entre uma demonstração tecnicamente possível e uma operação economicamente automatizável.

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