O primeiro balanço da Shein após sua estreia na Bolsa de Hong Kong revelou um problema que vai além da desaceleração das vendas. A receita trimestral avançou apenas 0,9%, para US$ 11,08 bilhões, enquanto o lucro líquido ajustado despencou 67%, para US$ 228 milhões. Os números mostram a pressão sobre um modelo de negócios construído em torno de preços baixos, produção flexível e entregas internacionais.
A margem líquida ajustada caiu de 6,2% para 2,1%. Na Europa, as vendas recuaram 13,9%, enquanto os Estados Unidos registraram queda de 6%. Os resultados provocaram uma desvalorização de dois dígitos das ações em 29 de setembro e levantaram uma questão: quanto do modelo da Shein continua economicamente viável sem as antigas vantagens tributárias?
O fim das isenções começa a alterar a economia de cada pedido
Durante sua expansão internacional, a Shein aproveitou um sistema que permitia enviar diretamente ao consumidor grandes volumes de encomendas de baixo valor, frequentemente sem o pagamento de determinados impostos de importação.
Essa estrutura ajudava a manter preços competitivos, oferecendo uma variedade extensa de produtos sem depender exclusivamente de grandes estoques próximos aos mercados consumidores.
Nos Estados Unidos, a suspensão da isenção de minimis para remessas de até US$ 800, ampliada a todas as origens em agosto de 2025, eliminou uma dessas vantagens. Na União Europeia, uma nova cobrança aduaneira de €3 entrou em vigor em julho de 2026 para determinadas importações de até €150.
A regra europeia introduz um obstáculo particularmente relevante para o comércio de produtos baratos: a cobrança considera as diferentes classificações tarifárias presentes na encomenda, e não simplesmente o valor total do pedido.
Uma compra contendo uma camiseta e um relógio, por exemplo, pode gerar €6 em direitos aduaneiros. Embora o recolhimento normalmente seja responsabilidade do vendedor ou importador, o custo precisa ser absorvido pela operação ou incorporado aos preços.

O segundo trimestre já oferece indícios dessa pressão. A Shein aumentou preços e reduziu investimentos em publicidade na Europa antes mesmo da entrada em vigor da nova cobrança.
Consequentemente, a queda de 13,9% nas vendas europeias não representa o efeito integral da nova tarifa. Ela reflete uma combinação de reajustes antecipados e menor investimento na aquisição de clientes.
O desafio é preservar a atratividade dos preços sem comprometer ainda mais as margens.
Custos temporários de transporte agravam um problema estrutural
Nem toda a deterioração financeira decorre das mudanças tributárias.
As despesas de processamento e entrega dos pedidos aumentaram 18,1% no trimestre, pressionadas pela elevação dos preços do combustível de aviação e dos fretes em meio ao conflito no Oriente Médio. A dependência do transporte aéreo torna a operação especialmente sensível a essas oscilações.
Existe, portanto, uma diferença importante entre os fatores que pressionam os resultados.
Uma eventual normalização dos custos de transporte poderia aliviar parte das despesas logísticas. Já o desaparecimento das antigas isenções tributárias exige adaptações mais profundas, porque altera permanentemente o custo de atender determinados mercados.
Essa distinção impede atribuir toda a contração das margens às tarifas, mas também mostra por que uma recuperação dos fretes não seria suficiente para restaurar automaticamente a rentabilidade anterior.
Estoques locais podem reduzir custos, mas modificam a principal vantagem da Shein
A resposta da empresa já está em andamento.
Em dezembro de 2025, a Shein inaugurou um centro logístico em Wrocław, na Polônia, concebido para atingir uma capacidade de 740 mil metros quadrados. A instalação integra sua estratégia de ampliar a distribuição regional e acelerar as entregas aos consumidores europeus.
A expansão dos estoques locais pode reduzir a necessidade de transportar individualmente cada pedido por longas distâncias. Também permite consolidar remessas e melhorar a velocidade de entrega.

Entretanto, essa transformação apresenta um custo operacional.
O modelo original da Shein utiliza pequenos lotes iniciais, normalmente entre 100 e 200 unidades, aumentando a produção conforme os sinais de demanda. Essa abordagem busca limitar estoques não vendidos e reduzir o capital comprometido em produtos cuja aceitação ainda é incerta.
Manter maiores quantidades de mercadorias próximas aos consumidores pode exigir previsões antecipadas de demanda, investimentos adicionais em armazenagem e maior exposição a produtos que perdem popularidade.
Além disso, a importação consolidada não elimina os impostos. Ela modifica a estrutura logística e o tratamento aduaneiro das mercadorias, podendo gerar economias suficientes para compensar parte dos novos custos.
A companhia também pretende ampliar sua presença em categorias de preços mais elevados. Segundo seu fundador e presidente, Yangtian Xu, a mudança na composição do catálogo deverá elevar o preço médio dos produtos comercializados pela plataforma.
Essa estratégia oferece espaço para aumentar a receita por pedido, mas sua eficácia dependerá da disposição dos consumidores de pagar mais e da capacidade de preservar a competitividade diante de varejistas tradicionais.
Os próximos resultados mostrarão quanto da pressão é permanente
O crescimento em outros mercados, especialmente na América Latina, conseguiu compensar parcialmente as perdas registradas nos Estados Unidos e na Europa. Isso demonstra que a empresa ainda possui alternativas geográficas para sustentar a receita, embora não resolva necessariamente a deterioração da rentabilidade em seus principais mercados.
O terceiro trimestre será particularmente importante porque compreenderá o primeiro período completo de aplicação da nova cobrança europeia.
Já o quarto trimestre permitirá observar se a Black Friday e o período de compras de Natal conseguem recuperar volumes sem exigir descontos ou investimentos publicitários incompatíveis com as novas margens.
Outro fator será a evolução regulatória. A União Europeia tornará obrigatórios novos identificadores de produtos em novembro e trabalha em uma cobrança adicional para custear o processamento aduaneiro, cujo valor e calendário ainda dependem de definição.
A questão central deixou de ser apenas quanto a Shein consegue vender e passou a incluir quanto custa entregar cada venda. Os próximos balanços permitirão avaliar se a combinação de estoques regionais, produtos mais caros e menor dependência das remessas individuais consegue recuperar as margens sem comprometer o crescimento.



