Uma jornalista conseguiu manter dez produtos de luxo indisponíveis para outros compradores durante horas ao utilizar o agente de inteligência artificial Muse, da Meta. O experimento, publicado pelo The Verge em 22 de outubro, mostrou como uma ferramenta de compras pode renovar repetidamente reservas de produtos sem concluir nenhuma aquisição.

A jornalista Mia Sato realizou o teste na The RealReal, plataforma especializada na revenda de artigos de luxo. Ela instruiu o agente a adicionar ao carrinho os dez anúncios mais recentes de uma marca de sua preferência e, posteriormente, repetir a operação sempre que as reservas expirassem.

O resultado foi uma sequência de bloqueios temporários que se estendeu por boa parte do dia, com breves intervalos entre as operações. Nenhum dos produtos foi comprado, e a própria jornalista encerrou a experiência.

Reservas de 20 minutos podem ser repetidas pelo agente

Na The RealReal, cada produto colocado no carrinho fica reservado por 20 minutos, período em que outros clientes não podem comprá-lo. A regra existe porque a plataforma comercializa principalmente peças únicas de segunda mão, sem unidades adicionais disponíveis em estoque.

A empresa explica em suas próprias regras que o limite busca impedir reservas indefinidas e oferecer oportunidades de compra aos demais usuários. Entretanto, o teste mostrou que o vencimento desse prazo não impediu o agente de adicionar novamente os mesmos produtos ao carrinho.

A distinção é importante: o Muse não decidiu bloquear produtos por iniciativa própria. Ele executou instruções deliberadas da jornalista, utilizando uma funcionalidade normalmente disponível aos consumidores. Ainda assim, a repetição automatizada permitiu prolongar a indisponibilidade dos artigos muito além de uma reserva individual.

O episódio não comprova que outros consumidores desistiram de compras ou sofreram prejuízos financeiros. Demonstra, porém, uma limitação operacional concreta: uma regra criada para proteger o acesso ao estoque pode produzir o efeito contrário quando utilizada repetidamente por automações.

Luke Friang, diretor de tecnologia da The RealReal, afirmou ao The Verge que a companhia pretende continuar permitindo que agentes externos naveguem, acessem contas e interajam com seu marketplace. Ao mesmo tempo, disse que a empresa mantém mecanismos de proteção contra atividades automatizadas capazes de prejudicar a experiência dos clientes.

A postura contrasta com a da Amazon. A porta-voz Maxine Tagay confirmou que a companhia solicitou à Meta a remoção da Amazon das opções de navegação do Muse, defendendo que agentes externos respeitem a decisão de cada varejista sobre sua participação nesses serviços.

A Target apresentou um comportamento intermediário durante os testes: o Muse conseguiu acessar determinadas páginas, mas encontrou bloqueios automatizados em outras ocasiões. A varejista informou que mantém proteções contra agentes não autorizados e operações realizadas em nome de consumidores.

A Meta, por sua vez, afirmou ao The Verge que o Muse permite a intervenção do usuário e foi desenvolvido para solicitar autorização antes de efetuar compras. O experimento evidencia uma diferença relevante entre essas ações: reservar produtos também pode afetar outros clientes, mesmo quando nenhuma compra é realizada.

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