Pesquisadores da Universidade de Bonn, na Alemanha, conseguiram transformar células sanguíneas de uma pessoa de 80 anos em células-tronco neurais com idade molecular inferior a 20 anos. O resultado foi obtido em laboratório e descrito em um estudo publicado em 3 de outubro na revista científica Aging Cell.

A equipe utilizou os fatores de transcrição SOX2 e cMYC para reprogramar precursores de glóbulos vermelhos, convertendo-os diretamente em células-tronco capazes de originar neurônios e outros tipos de células do sistema nervoso.

Durante a transformação, os pesquisadores observaram uma redução superior a 60 anos nos marcadores epigenéticos de envelhecimento. Esses marcadores são alterações químicas no DNA utilizadas por algoritmos conhecidos como relógios epigenéticos para estimar a idade biológica das células.

O processo não modifica a sequência genética. Em vez disso, altera mecanismos que controlam como as informações presentes no DNA são utilizadas.

Rejuvenescimento continuou mesmo com a divisão celular reduzida

O estudo analisou células de 15 doadores, com idades entre o nascimento e 101 anos. Embora sinais de identidade neural tenham surgido em aproximadamente 12 dias, a redução dos marcadores de envelhecimento ocorreu gradualmente, sobretudo durante as primeiras sete semanas, e pôde ser acompanhada por mais de 100 dias.

Essa evolução lenta é uma das características mais relevantes da pesquisa. Métodos convencionais que passam por uma etapa de pluripotência, na qual as células adquirem capacidade de originar diferentes tecidos, podem redefinir marcadores epigenéticos em aproximadamente 20 dias.

A equipe também identificou um resultado importante: o rejuvenescimento epigenético continuou mesmo quando a multiplicação das células foi reduzida experimentalmente. O efeito também persistiu durante a diferenciação em neurônios, indicando que não depende necessariamente de uma divisão celular contínua.

Segundo Oliver Brüstle, diretor do Instituto de Neurobiologia Reconstrutiva do Hospital Universitário de Bonn, acompanhar esse processo durante várias semanas permite investigar quais fatores e substâncias podem acelerar ou retardar a redução dos marcadores de envelhecimento.

Os pesquisadores também observaram que células neurais produzidas a partir de doadores idosos perderam características celulares normalmente associadas ao envelhecimento, incluindo determinados sinais de senescência e alterações no funcionamento mitocondrial.

Os resultados ainda não representam uma técnica de rejuvenescimento humano. Os experimentos ocorreram em culturas celulares, e a idade epigenética não corresponde a uma medida completa do envelhecimento biológico.

A principal aplicação imediata está na pesquisa científica. O modelo pode ajudar a investigar mecanismos celulares relacionados ao envelhecimento e sua ligação com doenças neurodegenerativas, incluindo o Alzheimer, sem que isso constitua uma terapia comprovada.

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