O mercado de criptomoedas perdeu cerca de US$ 2,1 trilhões em capitalização entre julho de 2025 e junho de 2026, uma contração próxima de 50%. No mesmo período, porém, a atividade econômica on-chain estimada pela Chainalysis recuou apenas 1,6%, de US$ 9,5 trilhões para US$ 9,4 trilhões. A diferença sugere que uma parte crescente da economia cripto está deixando de depender diretamente da valorização de Bitcoin e outros ativos, com stablecoins e transferências peer-to-peer assumindo um papel maior em pagamentos, remessas e movimentação de dólares digitais.
A mudança aparece com mais clareza quando os fluxos são separados. O valor enviado a exchanges, protocolos DeFi e outros serviços caiu 4,3%. Já as transferências domésticas diretamente entre carteiras cresceram 302,9%, de US$ 56,8 bilhões para US$ 228,7 bilhões. Ao mesmo tempo, os fluxos internacionais de stablecoins avançaram 77,5%, para US$ 220,3 bilhões.
Os números não significam que a economia cripto tenha se tornado imune aos ciclos de mercado. Eles indicam algo mais específico: o segmento utilizado para transferir valor está demonstrando ser menos sensível ao preço do que o segmento utilizado principalmente para negociar ativos.
Stablecoins começam a separar uso de especulação
A diferença está na própria mecânica das transações.
Quando Bitcoin ou outro ativo perde metade do valor, uma transferência da mesma quantidade de tokens passa a representar menos dólares. Além disso, períodos de queda tendem a reduzir o giro especulativo. Esse efeito apareceu nos fluxos direcionados a serviços cripto, que recuaram durante o período analisado.
Stablecoins funcionam de forma diferente. Uma transferência de US$ 1.000 em USDT ou USDC continua representando aproximadamente US$ 1.000 independentemente da cotação do Bitcoin. Se o objetivo for pagar um fornecedor, enviar dinheiro para outro país ou manter saldo denominado em dólar, a necessidade da transação também não desaparece necessariamente porque o mercado entrou em baixa.
Os dados da Chainalysis reforçam essa separação. Stablecoins já representam 96% da atividade P2P medida pela empresa. Enquanto o P2P doméstico considerando todos os ativos caiu 19,7%, sua parcela em stablecoins cresceu 377,7%. Até dentro dos serviços tradicionais, os fluxos em stablecoins avançaram 5,3% enquanto o total recuou.
O mesmo aconteceu com os saldos. O valor global de criptoativos mantidos on-chain caiu de US$ 860 bilhões em setembro de 2025 para US$ 440 bilhões em junho de 2026. Os saldos em stablecoins, porém, permaneceram em uma faixa relativamente estável, entre US$ 98 bilhões e US$ 109 bilhões.
Esse comportamento ajuda a explicar por que a queda da atividade foi muito menor que a destruição de valor do mercado.
Transferências internacionais mostram uma economia diferente
Os fluxos transfronteiriços fornecem uma segunda evidência de que stablecoins estão sendo usadas para funções que não dependem diretamente de especulação.
A Chainalysis estima que o valor mensal identificado em transferências internacionais de stablecoins passou de aproximadamente US$ 11 bilhões em janeiro de 2025 para US$ 24 bilhões em junho de 2026. O valor médio dessas operações ficou próximo de US$ 3.000, uma escala compatível com pagamentos a fornecedores, remessas e movimentação de poupança, e não apenas com grandes operações institucionais.
A empresa também identificou 4.708 novos corredores internacionais de stablecoins durante o período, responsáveis por US$ 2,64 bilhões em transferências. Sua metodologia é conservadora: operações nas quais origem ou destino não podem ser associados com segurança a um país ficam fora do cálculo.
O Fundo Monetário Internacional já identifica o mesmo movimento por outro ângulo. Em 2026, o organismo afirmou que stablecoins ultrapassaram criptoativos sem lastro como principal instrumento de atividade cripto transfronteiriça em economias emergentes, embora esses fluxos ainda representem uma parcela pequena do sistema financeiro global. O FMI aponta redução de fricção e potencial de custos menores em pagamentos internacionais, mas também riscos de dolarização, fuga de capitais e transmissão de choques financeiros.
Esse contraponto é importante. Crescimento dentro do universo cripto ainda não equivale a substituição das redes tradicionais de pagamentos. O BIS estimou cerca de US$ 390 bilhões em fluxos de stablecoins ligados efetivamente a pagamentos em 2025, uma fração pequena diante do sistema global de pagamentos internacionais. Grande parte do volume bruto de stablecoins ainda está ligada a trading, arbitragem e outras operações financeiras dentro do próprio ecossistema cripto.
Brasil mostra onde essa mudança pode ganhar escala
O Brasil adiciona uma dimensão importante à tendência. O país ficou em primeiro lugar no novo índice global de adoção da Chainalysis, com uma economia cripto estimada em US$ 252,5 bilhões. O resultado não veio da liderança em uma única métrica: o Brasil ficou entre os quatro primeiros em fluxos totais, saldos, P2P doméstico e transferências internacionais.
Mais relevante para a análise é o comportamento das stablecoins. Segundo a Chainalysis, a economia brasileira de stablecoins cresceu 495%, contra 89,4% no restante da América Latina. Transferências P2P em stablecoins entre US$ 10 mil e US$ 100 mil avançaram 562%, e aquelas entre US$ 100 e US$ 1.000 cresceram 666%.
O padrão brasileiro também mostra que adoção não significa necessariamente pagar o café em USDT. O Pix já atende grande parte da necessidade de pagamentos domésticos instantâneos. A Chainalysis aponta que stablecoins no país estão ganhando espaço sobretudo entre empresas, em liquidez, acesso a dólares e transferências internacionais. O número de carteiras brasileiras mantendo pelo menos US$ 10 mil em stablecoins aumentou 347% desde julho de 2024.
Na América Latina como um todo, stablecoins chegaram em junho a 32,1% do valor transfronteiriço medido pela Chainalysis, 22,1% do P2P doméstico e 17,6% dos saldos em carteiras pessoais.
Bear market continua sendo o teste mais importante
A diferença entre capitalização e atividade fornece uma evidência relevante de amadurecimento, mas ainda não prova um desacoplamento definitivo.
A própria metodologia da Chainalysis exige cautela. Sua medida de “economia cripto” combina entradas em serviços, transferências P2P domésticas e determinados fluxos internacionais. Parte da localização geográfica também é estimada por indicadores comportamentais e tráfego web. A empresa reconhece que a métrica é uma estimativa conservadora e que nem toda atividade on-chain pode ser atribuída corretamente a um país.
Também existe uma diferença entre transferir stablecoins e usá-las para comprar bens ou serviços na economia real. Uma movimentação entre carteiras pode representar pagamento, remessa ou poupança, mas também pode fazer parte de outras estratégias financeiras. BIS e FMI continuam apontando essa dificuldade de separar o volume aparentemente econômico da atividade ligada ao próprio mercado cripto.
Ainda assim, o bear market de 2025–2026 produziu um teste que ciclos anteriores não haviam mostrado com a mesma clareza. Em 2023, uma redução de apenas US$ 300 bilhões na capitalização coincidiu com queda de 23% na atividade medida pela Chainalysis. Desta vez, uma destruição de US$ 2,1 trilhões em valor de mercado veio acompanhada de retração de apenas US$ 100 bilhões na atividade.
O próximo teste será verificar se essa divergência permanece quando as condições de mercado mudarem. A evolução do P2P em stablecoins, o tamanho dos fluxos internacionais e, principalmente, a parcela que pode ser associada a pagamentos, comércio, remessas e operações empresariais indicarão se está surgindo uma camada econômica capaz de atravessar diferentes ciclos de preço.
Por enquanto, os dados mostram uma mudança mais limitada, mas concreta: o mercado cripto continua cíclico; parte da infraestrutura construída sobre ele está começando a não ser.



