A inteligência artificial voltou ao centro da diplomacia internacional em 23 de setembro. Sam Altman, da OpenAI, Dario Amodei, da Anthropic, Clément Delangue, da Hugging Face, e o pesquisador Yoshua Bengio participaram de uma reunião de alto nível do Conselho de Segurança das Nações Unidas dedicada à IA e à segurança internacional. Mais importante que os alertas individuais, porém, foi a natureza da discussão: governos passaram a debater testes, verificação, comunicação de incidentes e mecanismos diplomáticos para riscos criados por sistemas avançados.

A mudança não significa que a ONU esteja prestes a assumir o controle da regulação da IA. O que os últimos três anos mostram é algo diferente: a governança da tecnologia começa a ganhar uma camada permanente de diplomacia de segurança, paralela às leis nacionais, aos reguladores domésticos e às regras construídas pelos próprios laboratórios.

Remote testimony during a UN Security Council session on artificial intelligence.
Remote speaker addresses the UN Security Council during a session on AI.

O Conselho de Segurança deixou de tratar a IA como uma exceção

A reunião desta semana não foi a estreia da inteligência artificial no Conselho. O órgão realizou sua primeira discussão formal sobre o tema em julho de 2023. Em dezembro de 2024, voltou à questão em uma sessão presidida pelo então secretário de Estado americano Antony Blinken. Em setembro de 2025, realizou um novo debate de alto nível sobre IA e paz e segurança internacionais.

Em 2026, o foco ficou ainda mais específico. O encontro convocado pela França foi o primeiro do Conselho dedicado diretamente aos riscos de segurança de sistemas de IA cada vez mais capazes, incluindo a possibilidade de perda de controle humano. Antes dele, membros do órgão já haviam participado de seis reuniões formais ou informais relacionadas à tecnologia.

Isso importa porque muda a categoria política do problema. A discussão deixa de tratar apenas de privacidade, direitos autorais, proteção ao consumidor ou responsabilidade das empresas e passa a incluir ataques cibernéticos, infraestrutura crítica, sistemas militares, decisões automatizadas e situações em que um incidente em um país pode produzir efeitos além de suas fronteiras. Um relatório publicado neste mês pelo Security Council Report descreve justamente essa expansão e observa que a IA já influencia operações cibernéticas, ambientes de informação e atividades militares, além da competição por chips, energia, dados e infraestrutura computacional.

O salto, portanto, não é da ausência de diplomacia para a diplomacia. É de discussões ocasionais para uma tentativa de construir mecanismos capazes de acompanhar o risco continuamente.

A ONU já criou uma infraestrutura para IA, mas ela não regula o setor

O Conselho de Segurança também não está operando sozinho.

Em 2025, a Assembleia Geral criou o Global Dialogue on AI Governance e o Independent International Scientific Panel on AI. O primeiro diálogo anual ocorreu em julho de 2026, em Genebra, após meses de consultas com governos e outras organizações. O painel científico reúne 40 especialistas e foi criado para produzir avaliações periódicas sobre oportunidades, riscos e impactos da tecnologia.

Há, porém, uma limitação importante: o Global Dialogue não é um fórum de negociação e não produz acordos vinculantes. Seu desenho busca construir entendimento comum entre governos. O painel científico, por sua vez, tem mandato explicitamente voltado ao domínio não militar.

Isso ajuda a explicar por que o Conselho de Segurança pode ganhar importância mesmo com outras estruturas já existentes. Ele oferece uma arena diferente para problemas ligados a conflito, cibersegurança, uso militar e ameaças transnacionais.

A própria pauta francesa desta semana perguntou quais ferramentas diplomáticas, medidas de confiança e mecanismos internacionais de coordenação poderiam limitar riscos, além de como testar e verificar sistemas suficientemente rápido para acompanhar sua evolução.

A discussão já se parece menos com uma conferência genérica sobre princípios éticos e mais com a linguagem usada em outros problemas de segurança internacional.

EUA e China concordam que existe um problema, mas divergem sobre quem deve governá-lo

É nesse ponto que a tecnologia encontra a geopolítica.

Durante a reunião, o assessor de ciência e tecnologia da Casa Branca, Michael Kratsios, defendeu que organismos internacionais priorizem compartilhamento de boas práticas e fortalecimento das capacidades nacionais, “not establish a global regulatory scheme”. A posição segue a linha apresentada pelo presidente Donald Trump na Assembleia Geral, contrária a uma estrutura internacional centralizada para controlar a IA.

A China apresentou outra arquitetura. O embaixador Fu Cong defendeu melhora contínua das estruturas regulatórias, mecanismos de resposta a emergências e cooperação transfronteiriça. Nos meses anteriores, Pequim também havia defendido formalmente um papel central da ONU na governança global da IA.

Essa diferença já produziu instituições concretas. Em julho, 29 países assinaram o acordo de criação da World Artificial Intelligence Cooperation Organization, a WAICO, sediada em Xangai. O governo chinês afirma que a organização deve trabalhar com outras instituições internacionais e apoiar uma governança baseada em soberania, multilateralismo e maior participação de países em desenvolvimento.

A disputa, portanto, não pode ser reduzida a “regulação contra ausência de regulação”. Washington e Pequim estão discutindo também qual arquitetura internacional deve existir, quem participa dela e quanto poder decisões multilaterais devem ter sobre políticas nacionais e empresas.

Os próprios laboratórios agora pressionam governos por coordenação internacional

Há outra mudança relevante: parte da pressão por mecanismos internacionais vem das empresas que desenvolvem os sistemas mais avançados.

Altman afirmou no Conselho que decisões fundamentais sobre IA não deveriam ficar apenas nas mãos de laboratórios privados. A OpenAI também passou a defender padrões internacionais compatíveis para avaliação de capacidades, preservação de controle humano e resposta a riscos, além de mecanismos mais sistemáticos para comunicar incidentes graves.

Amodei foi ainda mais explícito sobre a dimensão transnacional do problema, argumentando que nenhuma empresa ou país consegue administrar sozinho determinados riscos. Bengio, co-presidente do painel científico da ONU, resumiu seu diagnóstico ao Conselho dizendo que “the dangers are real and imminent”.

Isso não significa que os laboratórios estejam defendendo um regulador mundial com poder direto sobre seus modelos. As propostas atualmente discutidas incluem diferentes graus de intervenção, de normas nacionais obrigatórias a padrões técnicos internacionais, avaliações independentes, comunicação de incidentes e canais seguros entre governos.

O consenso mais visível está na necessidade de coordenação. O conflito começa quando é preciso decidir quem estabelece as regras, como verificar o cumprimento e se essas regras devem ser voluntárias, nacionais ou internacionais.

A IA pode permanecer na agenda de segurança mesmo sem um regulador global

A evidência disponível não aponta para a substituição das regulações nacionais por um regime único da ONU.

Na verdade, o cenário atual é mais fragmentado. O Global Dialogue oferece uma arena universal, mas sem poder vinculante. Estados Unidos e China defendem modelos diferentes de governança. A União Europeia mantém seu próprio regime regulatório. O Conselho de Segurança ainda enfrenta divergências inclusive sobre qual deve ser seu papel: enquanto França e outros membros defendem maior envolvimento, a Rússia já questionou se a IA, tratada como tema amplo, deveria permanecer sob responsabilidade do Conselho ou de fóruns multilaterais mais especializados.

Ao mesmo tempo, a sequência de reuniões desde 2023, a criação de um painel científico permanente e de um diálogo anual da ONU e a inclusão cada vez mais explícita de IA em discussões sobre conflito e segurança tornam difícil tratá-la novamente como assunto exclusivamente tecnológico.

A governança da IA não está simplesmente deixando de ser doméstica. Ela está ganhando uma segunda camada, internacional e geopolítica.

Os próximos sinais serão concretos: se o Conselho criar mecanismos permanentes de acompanhamento ou produzir decisões formais sobre IA; se Estados Unidos e China conseguirem estabelecer canais para comunicar incidentes e riscos; se padrões de avaliação começarem a ser reconhecidos entre diferentes jurisdições; e se estruturas como o Global Dialogue e a WAICO conseguirem transformar princípios diplomáticos em mecanismos operacionais.

É nesses movimentos, mais do que nos discursos individuais desta semana, que será possível medir se a IA está se tornando de forma definitiva uma questão de segurança internacional.

Continue no Radar