A tentativa dos prediction markets de tratar contratos esportivos como um produto financeiro nacional sofreu um novo revés. O Sixth Circuit decidiu por unanimidade que a Kalshi não demonstrou que seus contratos ligados a esportes são swaps protegidos pela jurisdição exclusiva da Commodity Futures Trading Commission, permitindo que Ohio e Tennessee apliquem suas próprias regras de apostas esportivas.

O impacto vai além desses dois estados. Com decisões diferentes entre cortes federais, o mercado agora enfrenta uma questão que atinge diretamente seu modelo operacional: um contrato esportivo negociado em uma exchange regulada pela CFTC é necessariamente um derivativo federal ou pode continuar sendo tratado pelos estados como uma aposta?

A resposta definirá se plataformas como a Kalshi conseguem manter um mercado nacional ou se terão de conviver com licenças, restrições e bloqueios geográficos estado a estado.

O rótulo event contract não resolve a classificação jurídica

Um event contract é, em termos simples, um contrato cujo pagamento depende do resultado de determinado acontecimento. A própria CFTC explica que esses produtos são frequentemente estruturados como swaps e podem ser usados tanto para especulação quanto para proteção contra riscos econômicos.

Kalshi sports prediction market for Buffalo vs. Denver.
Kalshi interface showing Buffalo vs. Denver prediction market odds and contracts.

Mas event contract e swap não são sinônimos automáticos.

O Commodity Exchange Act inclui na definição de swap determinados contratos dependentes de um evento ou contingência associado a uma possível consequência financeira, econômica ou comercial. A disputa está justamente no significado dessa associação.

É essa diferença que separa, juridicamente, um contrato financeiro de algo que um estado pode classificar como wager, ou aposta.

Para a Kalshi, contratos sobre resultados esportivos entram no regime federal porque são negociados em uma Designated Contract Market registrada na CFTC e porque eventos esportivos estão relacionados a atividades econômicas como publicidade, direitos de transmissão e patrocínios.

O Sixth Circuit adotou uma leitura mais restrita.

Para o Sixth Circuit, a consequência econômica precisa estar no próprio evento

A corte entendeu que não basta demonstrar que um jogo afeta anunciantes, emissoras ou patrocinadores. O evento que serve de base ao contrato precisa ter uma consequência financeira, econômica ou comercial suficientemente direta.

Essa distinção se torna especialmente importante quando o contrato deixa de perguntar apenas quem vencerá uma partida e passa a cobrir ocorrências como número de escanteios, acontecimentos específicos dentro de um jogo ou combinações semelhantes a parlays.

Segundo o tribunal, esses eventos podem gerar efeitos econômicos indiretos, mas isso não os transforma necessariamente em instrumentos destinados a transferir risco financeiro ou produzir informação de preços da forma tradicionalmente associada aos mercados de derivativos.

Kalshi market pricing teams to win the pro football championship.
Kalshi Pro Football Champion market showing odds for Philadelphia, Kansas City, Buffalo and Washington.

A decisão também recuperou uma diferença estrutural importante. Em contratos ligados a juros, commodities ou condições econômicas, existe normalmente um risco financeiro identificável que participantes podem tentar proteger. Nos contratos esportivos examinados, o tribunal considerou que essa ligação era muito mais fraca.

Isso coloca a função econômica do contrato no centro da classificação jurídica, e não apenas sua arquitetura técnica ou o local onde ele é negociado.

O problema é que outra corte federal chegou à conclusão oposta

A interpretação não é uniforme.

Em abril, o Third Circuit manteve uma decisão favorável à Kalshi no processo envolvendo New Jersey. A corte considerou que a linguagem do Commodity Exchange Act era ampla o suficiente para abranger os contratos esportivos da empresa como swaps.

Nesse entendimento, resultados esportivos podem estar associados a consequências econômicas porque afetam franquias, patrocinadores, anunciantes, emissoras e outras atividades comerciais. Como os contratos são negociados em uma DCM registrada, o Third Circuit concluiu que a jurisdição federal poderia impedir a aplicação das regras estaduais.

Já em agosto, o Ninth Circuit tomou o caminho contrário em uma disputa com Nevada. A corte concluiu que a Kalshi não havia demonstrado que seus contratos esportivos eram swaps protegidos da regulação estadual e manteve aberta a possibilidade de aplicação das normas de gambling de Nevada.

Com o Sixth Circuit agora seguindo uma interpretação semelhante, o mesmo produto pode receber tratamentos jurídicos diferentes dependendo da jurisdição federal em que a disputa ocorre.

Esse é o ponto em que a discussão deixa de ser apenas sobre a Kalshi.

A jurisdição da CFTC também está no centro da disputa

Mesmo supondo que os contratos esportivos fossem classificados como swaps, o Sixth Circuit apresentou uma segunda conclusão relevante: a jurisdição exclusiva da CFTC não necessariamente elimina todas as leis estaduais que tenham algum efeito sobre produtos negociados em uma DCM.

Tennessee regulator orders Kalshi to stop offering sports event contracts.
Tennessee Sports Wagering Council cease-and-desist letter sent to Kalshi.

Para a corte, essa exclusividade protege principalmente o núcleo da regulação federal dos mercados de derivativos, incluindo licenciamento, funcionamento das exchanges, integridade do mercado, acesso e supervisão das transações.

As leis de Ohio e Tennessee, porém, têm outro objeto: regular apostas esportivas dentro de seus territórios. O fato de essas normas afetarem a Kalshi não seria suficiente, segundo o tribunal, para considerá las automaticamente substituídas pelo Commodity Exchange Act.

Essa interpretação enfraquece uma das principais vantagens estratégicas do modelo defendido pelos prediction markets: oferecer um único produto nacional sob uma única estrutura regulatória federal.

Geofencing pode se tornar parte da arquitetura do mercado

A consequência prática já aparece no próprio acórdão.

A Kalshi argumentou que limitar contratos esportivos em determinados estados entraria em conflito com regras federais que exigem acesso imparcial aos mercados de uma DCM. O Sixth Circuit rejeitou essa interpretação.

Segundo a corte, essas regras garantem tratamento imparcial aos participantes de um mercado que a exchange decidiu oferecer, mas não obrigam uma DCM a disponibilizar cada mercado em todos os estados.

O tribunal observou ainda que outras empresas utilizam geofencing para restringir produtos conforme a jurisdição. A Kalshi afirmou que esse modelo seria tecnicamente complexo, demorado e caro. A resposta da corte foi que custo e dificuldade não equivalem a impossibilidade jurídica.

Se essa interpretação prevalecer nacionalmente, prediction markets esportivos poderão continuar existindo, mas a promessa de um mercado uniforme pode ser substituída por uma estrutura muito mais próxima do gambling tradicional, com produtos disponíveis ou bloqueados dependendo do estado.

A própria CFTC ainda não encerrou a discussão

A fragmentação judicial ocorre enquanto a CFTC também redefine sua abordagem.

Em fevereiro, a comissão retirou uma proposta anterior que pretendia detalhar quais event contracts envolvendo gaming seriam contrários ao interesse público. A agência disse explicitamente que queria reconsiderar o tema diante das disputas estaduais e dos processos sobre jurisdição federal, preempção e contratos esportivos.

Ao mesmo tempo, a CFTC tem defendido sua autoridade federal de forma mais agressiva. Em junho, processou New Mexico para impedir que o estado aplicasse suas leis de gaming contra mercados registrados federalmente. A comissão sustentou que o Commodity Exchange Act lhe concede autoridade exclusiva sobre esses mercados.

Portanto, não existe apenas um conflito entre Kalshi e reguladores estaduais. Há também uma divergência institucional sobre onde termina o mercado federal de derivativos e começa a autoridade histórica dos estados sobre gambling.

A próxima definição pode precisar vir de cima dos circuitos

O Sixth Circuit manteve a negativa de uma liminar à Kalshi em Ohio, derrubou a liminar que protegia a empresa no Tennessee e devolveu os processos para continuidade. A decisão não encerra nacionalmente a questão.

Mas agora há uma divisão clara entre cortes federais de apelação. O Third Circuit aceitou a tese central da Kalshi, enquanto Ninth e Sixth Circuits chegaram a conclusões incompatíveis sobre contratos esportivos. New Jersey já pediu que a Suprema Corte reveja a decisão do Third Circuit.

É esse processo, juntamente com possíveis novos recursos e qualquer futura ação regulatória da CFTC, que precisa ser observado.

Até que exista uma interpretação nacional uniforme, prediction markets esportivos continuam presos entre duas identidades jurídicas: derivativos negociados em mercados federais e produtos que estados consideram economicamente equivalentes às apostas esportivas.

Continue no Radar